Discussão:Aikipedia

De Aikipedia

Entre o conceito de masakatsu agatsu e o conhece-te a ti mesmo socrático: proposta de aproximação entre o pensamento de um mestre do Budô e um filósofo grego clássico

Dedicado ao mestre Reishin Kawai e a Yassussi Nagao Sensei

Por Alex P. Guapindaia - Taiyo Aikido

Morihei Ueshiba (1883-1969), o fundador do Aikido, desenvolveu essa arte marcial a partir de seus estudos e treinamentos marciais e religiosos, anteriores ao período no qual se convencionou ter sido o da fundação propriamente dita do Aikido, que se deu em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial.

Não se pode ignorar a contextualização histórica trágica na qual ocorreu a transição entre a precedente escola marcial ensinada por Ueshiba, o Aiki-Budo, e aquilo que seria denominado modernamente como o Aikido, o qual, segundo seu próprio fundador, é a expressão concreta do “Caminho da Harmonia e do Amor”.

A criação do Aikido por Morihei Ueshiba representa uma guinada drástica no modo de compreensão do papel das antigas tradições marciais japonesas, bem como de sua inserção em um mundo que se despedaçava pela guerra generalizada, especialmente diante do papel assumido pelo Japão no conflito. (1)

Se a matriz histórica das tradições marciais estudadas por Ueshiba – altamente relacionada e intrincada com a própria história do Japão feudal e imperial – caracterizava-se pelas técnicas marciais tidas como instrumentos destinados à guerra (no qual temos o daito ryu aiki jujutsu como exemplo) e conservadas muitas vezes em segredo por gerações sucessivas de clãs e samurais, o nascente Aikido propõe, simultaneamente, uma ruptura com tal tradição beligerante, ao mesmo tempo em que conserva, em larga escala, todo o substrato cultural nipônico, do qual emerge e não irá e nem poderá se afastar.

De fato, é dentro dessa nova perspectiva de um conjunto de técnicas marciais não mais voltadas prioritariamente para a destruição e para a guerra, que o Aikido irá se propor como um autêntico caminho marcial destinado ao aperfeiçoamento espiritual do ser humano, com a proposta inovadora de se mostrar como um meio realizável – mas ainda assim tipicamente japonês – de se alcançar a superação dos conflitos, lato sensu, a partir de uma convivência humana baseada nos conceitos de harmonia e de amor, a partir dos quais se tornaria possível a assunção de uma nova humanidade.

Esse caminho marcial inovador proposto pelo Aikido – a despeito de ser compreendido a partir de uma série de influências filosóficas, religiosas e culturais sofridas por Morihei Ueshiba – possui como elemento fundamental e definidor de sua essência aquilo que o próprio fundador denominava como o princípio do masakatsu agatsu, ou seja, “a verdadeira vitória é a vitória sobre si mesmo”.

Morihei Ueshiba atribui a tal princípio a essência mesmo do Aikido, declarando que “A arte da paz pode ser resumida desta forma: A verdadeira vitória é a vitória sobre si mesmo; deixe que ela chegue rapidamente! ‘A verdadeira vitória’ significa coragem que não diminuirá; a ‘vitória sobre si mesmo’ simboliza o esforço sem perder força; ‘deixe que ela chegue rapidamente’ representa o verdadeiro momento do triunfo que é o aqui e agora.” (2)

É possível extrairmos dessa importância que Ueshiba confere ao princípio do masakatsu agatsu - para além de sua já citada contribuição ao desenvolvimento do Aikido por seu fundador - na própria dinâmica da prática dos treinamentos da arte nos dojos: a busca pela ausência de conflitos e oposição de força na execução das técnicas, a ausência de competições formais e um sistema de premiações baseadas no binômio vencedor e perdedor, o método de treinamento cooperativo e participativo entre os praticantes e o caráter essencialmente defensivo das técnicas.

Tais características são evidentes e chamativas no processo de treinamento do Aikido, e representam uma concretização de toda uma sustentação filosófica e religiosa subjacente à chamada arte da paz, na qual se destaca a clara intenção do fundador em propiciar um meio de se alcançar um conhecimento sobre si mesmo e que possibilite a hipótese de vitória, ou superação, não tendo em vista a alteridade, um outro, mas sim as próprias e naturais limitações e imperfeições que marcam o ser humano.

Daí advém o discurso naturalmente transcendental do Aikido em relação a quaisquer sistemas e crenças religiosas, políticas, étnicas ou culturais. O Aikido, tal como sistematizado e criado por Morihei Ueshiba, pela sua própria natureza de caminho ao aperfeiçoamento do ser humano, transcende às divisões acima mencionadas para atingir aquilo que é o elemento comum entre quaisquer pessoas: o ser humano. (3)

Nesse ponto, embora pertencentes a tradições tão díspares cultural e temporalmente, podemos remontar o princípio do masakatsu agatsu referido por Morihei Ueshiba à antiga inscrição constante no Oráculo do deus Apolo, na cidade de Delfos, na Grécia Antiga, no qual se lia a celébre frase: “conhece-te a ti mesmo”, de fundamental importância para o pensamento desenvolvido por Sócrates (470 A.C – 399 A.C).

De fato, é possível uma relativa aproximação entre tradições e personagens tão diversos, como a ora proposta, especificamente nesse ponto em que se demonstra a existência de um elemento comum, ou seja, o conhecimento do homem por ele mesmo como verdadeira sabedoria, e também como pressuposto para que se possa alcançar a autossuperação.

No diálogo platônico Alcibíades, Sócrates retoma a revelação que lhe havia sido feita pelo Oráculo de Delfos. Quando perguntado sobre o que deveria fazer para se tornar sábio, obteve como resposta que deveria “conhecer a si mesmo”, conforme se vê no diálogo entre Alcibíades e Sócrates (4):

Sócrates – Vamos, diz-me, com que arte podemos cuidar de nós mesmos?

Alcibíades – Não saberei dizer.

Sócrates – Nisso, contudo, estamos de acordo: não com uma arte com a qual poderemos tornar melhores qualquer uma das nossas coisas, mas com a arte que tornará melhores a nós mesmos?

Alcibíades – É verdade. [...]

Sócrates – E então? Jamais poderemos saber qual é a arte de tornar melhores a nós mesmos, se ignoramos o que nós mesmos somos.

Alcibíades – Impossível.

Sócrates – E, portanto, conhecer a si mesmo é uma coisa fácil e era talvez um homem qualquer aquele que, no templo de Delfos, consagrou aquele mote? Ou é, ao invés, uma coisa difícil e não para todos?

Alcibíades – A mim, Sócrates, amiúde pareceu ser coisa de todos, normalmente dificílima.

Sócrates – Mas, ó Alcibíades, fácil ou não, para nós é assim: se nos conhecermos, saberemos talvez também qual é o cuidado que devemos ter com nós mesmos; se não nos conhecemos, jamais o saberemos.

Alcibíades – Assim é.

Sócrates – Dize-me, pois, de que modo poder-se-ia encontrar o que é esse “si mesmo”?

Dito em outras palavras, o homem que ignora a si mesmo não é passível de adquirir conhecimento verdadeiro – ponto fundamental da filosofia clássica – e mesmo de conseguir a superação de si mesmo (visto que a superação pressupõe um prévio conhecimento de si) – que, como visto, é ponto fundamental na teoria do Aikido e no pensamento de Morihei Ueshiba.

Sócrates mostra que conhecendo-nos, temos condições de saber cuidar de nós mesmos, o que se torna impossível com a ignorância. O ser em si do homem, que deve ser conhecido, vai além de suas características contingentes, como os olhos, o tipo físico ou sua classe social, pois o ser é a sua alma, a que os gregos chamavam de psique.

Visto que um mesmo elemento ligado ao conhecimento de si adquire importância fundamental tanto na filosofia socrática como no Aikido desenvolvido por Morihei Ueshiba, é que se propõe essa aproximação entre tão diferentes universos e tempos históricos.

O Aikido hoje é praticado na maior parte dos países, por pessoas de diversas nacionalidades, religiões, crenças, etnias, convicções políticas e filosóficas, estabelecendo entre elas um elo, um código, uma conduta e mesmo alguns valores éticos e morais em comum.

Não se trata de dizer, evidentemente, que o próprio Aikido se encontre imune, ou que não seja ele mesmo um resultado direto dos mais variados fatores históricos, sociais e ideológicos, ou ainda, que seja capaz de superá-los como forma definitiva de pacificação social. De fato, o Aikido não pode subsistir como uma ideologia salvadora ou como uma panacéia divina.


Esse inclusive não parece ser o próprio pensamento de Morihei Ueshiba. Trata-se muito mais de oferecer aos homens uma possibilidade concreta de experimentarem um caminho pelo qual se realize a integração entre as diferenças (em quaisquer níveis – físico, cultural, étnico etc), a superação pacífica dos conflitos (em quaisquer níveis – físico, psicológico etc) e, sobretudo, a experiência prática de que pode ser possível uma convivência humana estabelecida em patamares diversos daqueles a que historicamente têm sido praticados.

Ao priorizar o princípio do masakatsu agatsu, Morihei Ueshiba – ainda que não se possa afirmar seu contato com a filosofia grega – retoma um antigo conceito socrático, atualizado para seu tempo, sua cultura e sua era, e propõe um caminho marcial com nítida aspiração altruísta.

Em um mundo notadamente marcado pela competição exacerbada, pelos desejos individuais divorciados do coletivo e mesmo pelos próprios indivíduos contemporâneos, que – tal como na antiguidade – ignoram a si mesmos, Morihei Ueshiba oferece uma prática marcial absolutamente enraizada na história e na cultura do Japão, mas que se propõe a oferecer algo transcendente a nacionalidades e culturas: a harmonia do homem com seu todo, a busca em vencer a si mesmo e não a um outro e a resolução de conflitos com base na não imposição do mais forte.

É exatamente nessa ambição proposta por Ueshiba que reside o inegável valor ético e poder sedutor do Aikido, bem como, sua quase “doce loucura” em propor a paz em um mundo que, em muitos sentidos, se encontra novamente despedaçado pela guerra.


(1) UESHIBA, Morihei; Budô: Ensinamentos do Fundador do Aikido. Trad. de Paulo C. Proença; Editora Cultrix, São Paulo, 2006, 3 edição. Pág.19: “Nos estágios iniciais da Segunda Guerra Mundial, os conselhos de Morihei foram muito procurados por líderes militares e primeiro-ministros, mas logo os massacres e carnificinas o deixaram emocionalmente e fisicamente doente. Em 1942, Morihei repentinamente desligou-se de todas as suas atividades militares e retirou-se com sua esposa para uma pequena cabana nas florestas de Iwama, Prefeitura de Ibaragi. Ali trabalhou na fazenda e iniciou a construção do Santuário Aiki. Em 1942, durante o período mais sombrio da história humana, Morihei foi levado a chamar o sistema de sua criação de Aikido, ‘O Caminho da Harmonia e do Amor’”.

(2)UESHIBA, Morihei. The art of peace; 2002; Tradução e edição de John Stevens. Shambhalla Publications Inc.; tradução livre para o português do trecho mencionado.

(3) UESHIBA, Morihei. The art of piece. Obra citada; pág.11: “A arte da paz que pratico tem espaço para cada um dos oito milhões de deuses do mundo, e eu coopero com todos eles. O Deus da Paz é muito grande e se alegra com tudo que é divino e iluminado em cada terra.”
(4)PLATÃO, Alcibíades maior, 128d-130e, apud REALE, vol I, 1993, p. 263

Entre o conceito de masakatsu agatsu e o conhece-te a ti mesmo socrático: proposta de aproximação entre o pensamento de um mestre do Budô e um filósofo grego clássico

Dedicado ao mestre Reishin Kawai e a Yassussi Nagao Sensei

Por Alex P. Guapindaia - Taiyo Aikido

Morihei Ueshiba (1883-1969), o fundador do Aikido, desenvolveu essa arte marcial a partir de seus estudos e treinamentos marciais e religiosos, anteriores ao período no qual se convencionou ter sido o da fundação propriamente dita do Aikido, que se deu em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial.

Não se pode ignorar a contextualização histórica trágica na qual ocorreu a transição entre a precedente escola marcial ensinada por Ueshiba, o Aiki-Budo, e aquilo que seria denominado modernamente como o Aikido, o qual, segundo seu próprio fundador, é a expressão concreta do “Caminho da Harmonia e do Amor”.

A criação do Aikido por Morihei Ueshiba representa uma guinada drástica no modo de compreensão do papel das antigas tradições marciais japonesas, bem como de sua inserção em um mundo que se despedaçava pela guerra generalizada, especialmente diante do papel assumido pelo Japão no conflito. (1)

Se a matriz histórica das tradições marciais estudadas por Ueshiba – altamente relacionada e intrincada com a própria história do Japão feudal e imperial – caracterizava-se pelas técnicas marciais tidas como instrumentos destinados à guerra (no qual temos o daito ryu aiki jujutsu como exemplo) e conservadas muitas vezes em segredo por gerações sucessivas de clãs e samurais, o nascente Aikido propõe, simultaneamente, uma ruptura com tal tradição beligerante, ao mesmo tempo em que conserva, em larga escala, todo o substrato cultural nipônico, do qual emerge e não irá e nem poderá se afastar.

De fato, é dentro dessa nova perspectiva de um conjunto de técnicas marciais não mais voltadas prioritariamente para a destruição e para a guerra, que o Aikido irá se propor como um autêntico caminho marcial destinado ao aperfeiçoamento espiritual do ser humano, com a proposta inovadora de se mostrar como um meio realizável – mas ainda assim tipicamente japonês – de se alcançar a superação dos conflitos, lato sensu, a partir de uma convivência humana baseada nos conceitos de harmonia e de amor, a partir dos quais se tornaria possível a assunção de uma nova humanidade.

Esse caminho marcial inovador proposto pelo Aikido – a despeito de ser compreendido a partir de uma série de influências filosóficas, religiosas e culturais sofridas por Morihei Ueshiba – possui como elemento fundamental e definidor de sua essência aquilo que o próprio fundador denominava como o princípio do masakatsu agatsu, ou seja, “a verdadeira vitória é a vitória sobre si mesmo”.

Morihei Ueshiba atribui a tal princípio a essência mesmo do Aikido, declarando que “A arte da paz pode ser resumida desta forma: A verdadeira vitória é a vitória sobre si mesmo; deixe que ela chegue rapidamente! ‘A verdadeira vitória’ significa coragem que não diminuirá; a ‘vitória sobre si mesmo’ simboliza o esforço sem perder força; ‘deixe que ela chegue rapidamente’ representa o verdadeiro momento do triunfo que é o aqui e agora.” (2)

É possível extrairmos dessa importância que Ueshiba confere ao princípio do masakatsu agatsu - para além de sua já citada contribuição ao desenvolvimento do Aikido por seu fundador - na própria dinâmica da prática dos treinamentos da arte nos dojos: a busca pela ausência de conflitos e oposição de força na execução das técnicas, a ausência de competições formais e um sistema de premiações baseadas no binômio vencedor e perdedor, o método de treinamento cooperativo e participativo entre os praticantes e o caráter essencialmente defensivo das técnicas.

Tais características são evidentes e chamativas no processo de treinamento do Aikido, e representam uma concretização de toda uma sustentação filosófica e religiosa subjacente à chamada arte da paz, na qual se destaca a clara intenção do fundador em propiciar um meio de se alcançar um conhecimento sobre si mesmo e que possibilite a hipótese de vitória, ou superação, não tendo em vista a alteridade, um outro, mas sim as próprias e naturais limitações e imperfeições que marcam o ser humano.

Daí advém o discurso naturalmente transcendental do Aikido em relação a quaisquer sistemas e crenças religiosas, políticas, étnicas ou culturais. O Aikido, tal como sistematizado e criado por Morihei Ueshiba, pela sua própria natureza de caminho ao aperfeiçoamento do ser humano, transcende às divisões acima mencionadas para atingir aquilo que é o elemento comum entre quaisquer pessoas: o ser humano. (3)

Nesse ponto, embora pertencentes a tradições tão díspares cultural e temporalmente, podemos remontar o princípio do masakatsu agatsu referido por Morihei Ueshiba à antiga inscrição constante no Oráculo do deus Apolo, na cidade de Delfos, na Grécia Antiga, no qual se lia a celébre frase: “conhece-te a ti mesmo”, de fundamental importância para o pensamento desenvolvido por Sócrates (470 A.C – 399 A.C).

De fato, é possível uma relativa aproximação entre tradições e personagens tão diversos, como a ora proposta, especificamente nesse ponto em que se demonstra a existência de um elemento comum, ou seja, o conhecimento do homem por ele mesmo como verdadeira sabedoria, e também como pressuposto para que se possa alcançar a autossuperação.

No diálogo platônico Alcibíades, Sócrates retoma a revelação que lhe havia sido feita pelo Oráculo de Delfos. Quando perguntado sobre o que deveria fazer para se tornar sábio, obteve como resposta que deveria “conhecer a si mesmo”, conforme se vê no diálogo entre Alcibíades e Sócrates (4):

Sócrates – Vamos, diz-me, com que arte podemos cuidar de nós mesmos?

Alcibíades – Não saberei dizer.

Sócrates – Nisso, contudo, estamos de acordo: não com uma arte com a qual poderemos tornar melhores qualquer uma das nossas coisas, mas com a arte que tornará melhores a nós mesmos?

Alcibíades – É verdade. [...]

Sócrates – E então? Jamais poderemos saber qual é a arte de tornar melhores a nós mesmos, se ignoramos o que nós mesmos somos.

Alcibíades – Impossível.

Sócrates – E, portanto, conhecer a si mesmo é uma coisa fácil e era talvez um homem qualquer aquele que, no templo de Delfos, consagrou aquele mote? Ou é, ao invés, uma coisa difícil e não para todos?

Alcibíades – A mim, Sócrates, amiúde pareceu ser coisa de todos, normalmente dificílima.

Sócrates – Mas, ó Alcibíades, fácil ou não, para nós é assim: se nos conhecermos, saberemos talvez também qual é o cuidado que devemos ter com nós mesmos; se não nos conhecemos, jamais o saberemos.

Alcibíades – Assim é.

Sócrates – Dize-me, pois, de que modo poder-se-ia encontrar o que é esse “si mesmo”?

Dito em outras palavras, o homem que ignora a si mesmo não é passível de adquirir conhecimento verdadeiro – ponto fundamental da filosofia clássica – e mesmo de conseguir a superação de si mesmo (visto que a superação pressupõe um prévio conhecimento de si) – que, como visto, é ponto fundamental na teoria do Aikido e no pensamento de Morihei Ueshiba.

Sócrates mostra que conhecendo-nos, temos condições de saber cuidar de nós mesmos, o que se torna impossível com a ignorância. O ser em si do homem, que deve ser conhecido, vai além de suas características contingentes, como os olhos, o tipo físico ou sua classe social, pois o ser é a sua alma, a que os gregos chamavam de psique.

Visto que um mesmo elemento ligado ao conhecimento de si adquire importância fundamental tanto na filosofia socrática como no Aikido desenvolvido por Morihei Ueshiba, é que se propõe essa aproximação entre tão diferentes universos e tempos históricos.

O Aikido hoje é praticado na maior parte dos países, por pessoas de diversas nacionalidades, religiões, crenças, etnias, convicções políticas e filosóficas, estabelecendo entre elas um elo, um código, uma conduta e mesmo alguns valores éticos e morais em comum.

Não se trata de dizer, evidentemente, que o próprio Aikido se encontre imune, ou que não seja ele mesmo um resultado direto dos mais variados fatores históricos, sociais e ideológicos, ou ainda, que seja capaz de superá-los como forma definitiva de pacificação social. De fato, o Aikido não pode subsistir como uma ideologia salvadora ou como uma panacéia divina.


Esse inclusive não parece ser o próprio pensamento de Morihei Ueshiba. Trata-se muito mais de oferecer aos homens uma possibilidade concreta de experimentarem um caminho pelo qual se realize a integração entre as diferenças (em quaisquer níveis – físico, cultural, étnico etc), a superação pacífica dos conflitos (em quaisquer níveis – físico, psicológico etc) e, sobretudo, a experiência prática de que pode ser possível uma convivência humana estabelecida em patamares diversos daqueles a que historicamente têm sido praticados.

Ao priorizar o princípio do masakatsu agatsu, Morihei Ueshiba – ainda que não se possa afirmar seu contato com a filosofia grega – retoma um antigo conceito socrático, atualizado para seu tempo, sua cultura e sua era, e propõe um caminho marcial com nítida aspiração altruísta.

Em um mundo notadamente marcado pela competição exacerbada, pelos desejos individuais divorciados do coletivo e mesmo pelos próprios indivíduos contemporâneos, que – tal como na antiguidade – ignoram a si mesmos, Morihei Ueshiba oferece uma prática marcial absolutamente enraizada na história e na cultura do Japão, mas que se propõe a oferecer algo transcendente a nacionalidades e culturas: a harmonia do homem com seu todo, a busca em vencer a si mesmo e não a um outro e a resolução de conflitos com base na não imposição do mais forte.

É exatamente nessa ambição proposta por Ueshiba que reside o inegável valor ético e poder sedutor do Aikido, bem como, sua quase “doce loucura” em propor a paz em um mundo que, em muitos sentidos, se encontra novamente despedaçado pela guerra.


(1) UESHIBA, Morihei; Budô: Ensinamentos do Fundador do Aikido. Trad. de Paulo C. Proença; Editora Cultrix, São Paulo, 2006, 3 edição. Pág.19: “Nos estágios iniciais da Segunda Guerra Mundial, os conselhos de Morihei foram muito procurados por líderes militares e primeiro-ministros, mas logo os massacres e carnificinas o deixaram emocionalmente e fisicamente doente. Em 1942, Morihei repentinamente desligou-se de todas as suas atividades militares e retirou-se com sua esposa para uma pequena cabana nas florestas de Iwama, Prefeitura de Ibaragi. Ali trabalhou na fazenda e iniciou a construção do Santuário Aiki. Em 1942, durante o período mais sombrio da história humana, Morihei foi levado a chamar o sistema de sua criação de Aikido, ‘O Caminho da Harmonia e do Amor’”.

(2)UESHIBA, Morihei. The art of peace; 2002; Tradução e edição de John Stevens. Shambhalla Publications Inc.; tradução livre para o português do trecho mencionado.

(3) UESHIBA, Morihei. The art of piece. Obra citada; pág.11: “A arte da paz que pratico tem espaço para cada um dos oito milhões de deuses do mundo, e eu coopero com todos eles. O Deus da Paz é muito grande e se alegra com tudo que é divino e iluminado em cada terra.”
(4)PLATÃO, Alcibíades maior, 128d-130e, apud REALE, vol I, 1993, p. 263